III SALÃO de BANDA DESENHADA da AMADORA
Em 1992, o Festival Internacional de Banda Desenhada ganha um novo palco. As antigas instalações da Cometna representavam um novo espaço cedido à Câmara Municipal da Amadora para realizações de índole cultural, com possibilidades à altura dos seus cerca de 2700 m2. Em Setembro, estas novas instalações receberam a Bienal de Gravura. Em Outubro serviram pela primeira vez o Festival. Este espaço polivalente que o Festival ajudou a familiarizar dá pelo nome de... Fábrica da Cultura.
Paralelamente a um alargamento de palco (acolhendo mais de duas dezenas de exposições), dá-se um alargamento dos prémios a atribuír, e um muito significativo alargamento da componente internacional do Festival, incluindo um espaço de cultura lusófona. Com efeito, é a partir de 1992 que o Festival começa a orientar--se no sentido de tornar o ponto de encontro internacional da Banda Desenhada em Portugal, com o assumir de novas responsabilidades e o definir de novos rumos para as edições que se seguiram.
Em termos de calendarização, o Festival propunha um tema para cada dia (inauguração; Dia da Amadora; Encontro de Festivais; Dia dos Autores Portugueses; Dia da Bélgica; Dia da Meribérica; Dia dos EUA; Dia de Cabo Verde; Dia da França; Dia do Fanzine; Dia da Espanha; Dia do Cartoon; Dia da Asa; Dia da BD como Arte Gráfica; Dia do Lançamento Comercial do Livro “Levem-me Nesse Sonho - História da Amadora em Banda Desenhada”, e Dia do Fecho).
A “História da Amadora em Banda Desenhada” de José Ruy projectou a dimensão regional do evento ao lado da preocupação de internacionalização.
Com a presença tutelar do ‘Hórus’ de Bilal, o leque de exposições patentes na Fábrica da Cultura demonstra bem o enorme salto verificado entre as edições de 1991 e 1992.
Entre as exposições individuais, destaque obrigatório para o percurso louco da Eurogotlibland, para a selva de ‘Jim Del Monaco’, para o universo de “Lucky Luke” (com saloon e muitas personagens), o percurso histórico da cidade da Amadora (a partir do trabalho de José Ruy), o mundo de “Michel Vaillant”, e as “Crónicas Incongruentes” de Prado (com autocarro incluído). Com direito ainda a exposição individual, estiveram Luís Diferr, Fernando Tito e Rui Abrantes, Jerry Robinson (uma exposição bem identificada pela silhueta de Batman) e Maria Luísa Queiroz. No cartoon, tiveram destaque em exposição António, Pedro Palma e Carlos Laranjeira.
Entre as exposições colectivas, destacavam-se duas mostras dedicadas a produção de jovens (jovens europeus e jovens cordoveses), e a mais ambiciosa “Ça, c’est la France!”.
Num tipo de exposição de que o Festival se veio progressivamente afastando (com honrosas excepções), mostrou-se a obra de Rafael Bordalo Pinheiro, e de Francisco Valença.
Referência ainda para “Perturbações”, Era Uma Vez” e “Little Nemo”.
Astérix marcava presença num espaço dedicado aos mais jovens.
A exposição dedicada à obra de Gotlib iniciou a apresentação em Portugal dos Prix de Ville de Angoulême. Gotlib recebera o Prix de Ville em 1991, presidindo à edição de 1992 do festival francês.
Apesar da presença na Amadora de (um regressado) Morris ou de Miguelanxo Prado, e de a crítica especializada ter aplaudido e salientado a presença de Jerry Robinson, há que destacar um verdadeiro campeão junto do público: Jean Graton. O “pai” de Michel Vaillant esteve na Amadora e falou de herois, dos valores do desporto, de condução, e de BD (que considerou um dom). Entre a ficção e a (rigorosa) reportagem documentada, as aventuras motorizadas da autoria de Graton, em particular as de Michel Vaillant, povoam o imaginário de diferentes gerações de leitores portugueses, mostrando-lhes o heroi que o autor gostaria de ser.
Para além destes nomes mais sonantes, outras personalidades da banda desenhada marcaram presença na Amadora, como sucedeu com Jean Annestay, argumentista, editor (esteve no projecto da Aedena) e colaborador de Moebius; Marvano (Mark Van Oppen), o autor de “A Guerra Eterna”, ou René Sterne, o autor de “Adler”. Destaque ainda para apresença da cabo-verdiana Maria Luísa Queirós. Marcel Gotlib, que confirmou a presença até muito perto do início do Festival, acabou por ser o grande ausente.
Entre os portugueses, estiveram em destaque vários autores com exposições individuais: Luís Diferr, Fernando Tito, Louro & Simões e Rui Abrantes. Também na área do cartoon se destacaram António, Pedro Palma e Carlos Laranjeira. Mas a presença maior entre os autores nacionais foi uma vez mais José Ruy, mercê, sobretudo, do merecido destaque conferido a “Levem-me nesse Sonho!” (um dos dois álbuns do autor publicados por ocasião do Festival).
Verdadeiramente integrado no espírito do Festival, José Ruy escreveu, já decorrido o evento, nas páginas de ‘O Bedelho’: “Foi bonito ver esta família criada neste Salão, unida já para sempre, pelo menos na memória viva de todos quantos como eu tivemos a felicidade de assistir a este acto de amor ao trabalho, à BD, à cultura”.
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