III FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA
Em 1992, entre os dias 17 de Outubro e 1 de Novembro, o Festival Internacional de Banda Desenhada ganha um novo palco. As antigas instalações da Cometna representavam um novo espaço cedido à Câmara Municipal da Amadora para realizações de índole cultural, com possibilidades à altura dos seus cerca de 2700 m2. Em Setembro, estas novas instalações receberam a Bienal de Gravura. Em Outubro serviram pela primeira vez o Festival. Este espaço polivalente que o Festival ajudou a familiarizar dá pelo nome de... Fábrica da Cultura.
Paralelamente a um alargamento de palco (acolhendo mais de duas dezenas de exposições), dá-se um alargamento dos prémios a atribuír, e um muito significativo alargamento da componente internacional do Festival, incluindo um espaço de cultura lusófona. Com efeito, é a partir de 1992 que o Festival começa a orientar-se no sentido de se tornar no ponto de encontro internacional da Banda Desenhada em Portugal, com o assumir de novas responsabilidades e o definir de novos rumos para as edições que se seguiram.
Em termos de calendarização, o Festival propunha um tema para cada dia (inauguração; Dia da Amadora; Encontro de Festivais; Dia dos Autores Portugueses; Dia da Bélgica; Dia da Meribérica; Dia dos EUA; Dia de Cabo Verde; Dia da França; Dia do Fanzine; Dia da Espanha; Dia do Cartoon; Dia da Asa; Dia da BD como Arte Gráfica; Dia do Lançamento Comercial do Livro “Levem-me Nesse Sonho - História da Amadora em Banda Desenhada”, e Dia do Fecho).
Com a presença tutelar do "Hórus" de Bilal, o leque de exposições patentes na Fábrica da Cultura demonstrava bem o enorme salto verificado entre as edições de 1991 e 1992.
Entre as exposições individuais, destaque obrigatório para o percurso louco da Eurogotlibland, para a selva de "Jim Del Mónaco", para o universo de “Lucky Luke” (com saloon e muitas personagens), o percurso histórico da cidade da Amadora (a partir do trabalho de José Ruy), o mundo de “Michel Vaillant”, e as “Crónicas Incongruentes” de Prado (com autocarro incluído). Com direito ainda a exposição individual, estiveram Luís Diferr, Fernando Tito e Rui Abrantes, Jerry Robinson (uma exposição bem identificada pela silhueta de Batman) e Maria Luísa Queiroz. No cartoon, tiveram destaque em exposição António, Pedro Palma e Carlos Laranjeira.
Entre as exposições colectivas, destacavam-se duas mostras dedicadas à produção de jovens (jovens europeus e jovens cordoveses), e a mais ambiciosa “Ça, c’est la France!” (uma volta à França em 12 imagens com participação de Bilal, Moebius, Loustal, Jano, Franc, Boucq, J.C. Denis, Juillard, Margerin, Schuiten e Bourgeon).
Num tipo de exposição de que o Festival se veio progressivamente afastando (com honrosas excepções), mostrou-se a obra de Rafael Bordalo Pinheiro e de Francisco Valença.
Referência ainda para “Perturbações”, Era Uma Vez” e “Little Nemo”.
Astérix marcava presença num espaço dedicado aos mais jovens.
Uma vez mais, o Festival dava, também, relevo ao cinema de animação com a estimada colaboração de Vasco Granja.
A exposição dedicada à obra de Gotlib iniciou a apresentação em Portugal dos Prix de Ville de Angoulême. Gotlib recebera o Prix de Ville em 1991, presidindo à edição de 1992 do festival francês.
Apesar da presença na Amadora de (um regressado) Morris ou de Miguelanxo Prado, e de a crítica especializada ter aplaudido e salientado a presença de Jerry Robinson, há que destacar um verdadeiro campeão junto do público: Jean Graton. O “pai” de Michel Vaillant esteve na Amadora e falou de heróis, dos valores do desporto, de condução, e de BD (que considerou um dom). Entre a ficção e a (rigorosa) reportagem documentada, as aventuras motorizadas da autoria de Graton, em particular as de Michel Vaillant, povoam o imaginário de diferentes gerações de leitores portugueses, mostrando-lhes o herói que o autor gostaria de ser.
Além destes nomes mais sonantes, outras personalidades da banda desenhada marcaram presença na Amadora, como sucedeu com Jean Annestay, argumentista, editor (esteve no projecto da Aedena) e colaborador de Moebius; Marvano (Mark Van Oppen), o autor de “A Guerra Eterna”, ou René Sterne, o autor de “Adler”. Destaque, ainda, para a presença da cabo-verdiana Maria Luísa Queirós. Marcel Gotlib, que confirmou a presença até muito perto do início do Festival, acabou por ser o grande ausente.
Entre os portugueses, estiveram em destaque vários autores com exposições individuais: Luís Diferr, Fernando Tito, Louro & Simões e Rui Abrantes. Mas a presença maior entre os autores nacionais foi, uma vez mais, José Ruy, mercê, sobretudo, do merecido destaque conferido a “Levem-me nesse Sonho!” (um dos dois álbuns do autor publicados por ocasião do Festival).
Verdadeiramente integrado no espírito do Festival, José Ruy escreveu, já decorrido o evento, nas páginas de ‘O Bedelho’: “Foi bonito ver esta família criada neste Salão, unida já para sempre, pelo menos na memória viva de todos quantos como eu tivemos a felicidade de assistir a este acto de amor ao trabalho, à BD, à cultura”.
Neste ano, o Festival atribuiu o Prémio de Melhor Álbum Português a "A Moura Cassima", terceiro volume da série Lendas de Portugal, com desenho de Augusto Trigo e argumento de Jorge Magalhães e o Prémio para Melhor Álbum de Autor Estrangeiro editado em Portugal a "O Sortilégio", primeiro tomo de Fúlú, de Eduardo Risso e Carlos Trillo. Foi, ainda, atribuído o Prémio Juventude ao álbum "A Febre da Primavera", de Michel Bridenn.
O troféu de Honra Zé Pacóvio e Grilinho foi entregue ao autor Morris.
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