VI SALÃO de BANDA DESENHADA da AMADORA
O Festival de 1995 era, à partida, um festival de autores. Com uma escolha quase cirúrgica de convidados, o Festival apresentava grandes soluções para todos os sectores: Spiegelman para os críticos e analistas, Manara para o grande público, Maurício para o público infantil. A este “trio” terá de se somar o enorme fenómeno que se veio a revelar Luís Louro e a sua “Alice”. E considerem-se ainda outros nomes como o de Régis Loisel. Mas o facto é que este grandioso elenco escondia afinal uma enorme falta. Em 1995, Hugo Pratt iria estar presente no Festival da Amadora. Lamentavelmente, o genial criador italiano viria a falecer uns meses antes do início do Festival.
O Festival de 1995 é também um marco de alguma polémica, na discussão sobre o público-alvo do evento. O erotismo presente nas mostras dedicadas à obra de Louro (sobretudo com “Alice”) e Manara, situadas em local privilegiado da Fábrica da Cultura, dão que falar. E, embora o público do Festival seja cada vez menos o público infantil, as exposições que vieram a ser posteriormente apresentadas destinadas a um público adulto passaram a estar sempre devidamente assinaladas. Mas o Festival de 1995 é sobretudo um palco em que se confirma uma enorme potencialidade de mercado. Multiplicam-se os editores, florescem as publicações, aparecem antologias e livros técnicos, apresentam-se projectos de revistas, ensaiam-se tácticas inovadoras de contacto com o público nas sessões de autógrafos, apresentam-se novos autores, sugerem-se novos negócios para a edição de autores de terras distantes. Lamentavelmente, uma enorme parte desta movimentação não passa de fogo de vista, e não virá a conhecer qualquer continuidade imediata.
Os universos de Luís Louro e Milo Manara dominavam a entrada da Fábrica da Cultura, fazendo uma retrospectiva da obra dos autores, mas sobretudo centrados, respectivamente, nos álbuns “Alice” e “Verão Índio”. O habitual espaço para os trabalhos participantes nos concursos antecedia a mostra colectiva de cartoon “20 Anos de Democracia”, e as colectivas de banda desenhada “Moçambique”, “Crianças Terríveis” (de Quim e Filipe a Calvin & Hobbes) e ‘Pedranocharco’ (quase exclusivamente sobre “Paio Peres”). Não muito distantes, estavam três mostras individuais muito bem recebidas pelo público, dedicadas a Didier Comès, Victor Mesquita e Fernando Relvas. O universo das personagens de Maurício de Sousa prolongava o espaço de animação infantil, e antecedia uma das exposições mais ricas de conteúdo: a mostra dedicada a Jean-Michel Charlier. Mais portugueses em destaque estavam agrupados em nova sequência de três exposições, com a “Filosofia de Ponta” de Nuno Saraiva e Júlio Pinto, a ‘apresentação oficial’ de Alberto Varanda ao público português, e a colectiva “B.D. no Feminino” que, depois das “Mulheres” de 1993, propunha dezasseis autoras contemporâneas de sete países diferentes. “Como pode Nascer Uma BD” foi uma exposição didáctica apresentada num piso mais elevado, com vista para o animado espaço “Oriente”, onde a banda desenhada coreana sobressaía.
Sob a forma de labirinto, a mostra da obra de Art Spiegelman apresentava um desafio de cenografia. Finalmente, uma colectiva sobre os 15 anos da revista espanhola “El Víbora” dava acesso a uma mostra sobre ‘Peter Pan’, onde os muito trabalhados originais de Régis Loisel ofuscavam os mais discretos Peter Pank de Max.
Sobre todo o (labiríntico) conjunto de exposições, a Fábrica da Cultura propunha como elemento unificador grandes imagens retiradas da obra de Hugo Pratt, desaparecido nesse ano de 1995 em que tinha aceite o convite para estar presente na Amadora.
Luís Louro empenha-se no ano de 95 na promoção de “Alice”, mas é claramente surpreendido com o sucesso do álbum. A exposição da obra do autor e a sua presença no Festival depressa fazem com que o livro venda mais de cinco centenas de exemplares só na Fábrica da Cultura.
Na sessão de autógrafos de Louro, a fila estende-se até ao autocarro do ano editorial português que se encontrava à entrada da Fábrica. O destaque que o Festival trouxe a Louro, mais do que a outros autores portugueses em anos anteriores, mostrou bem a potencialidade do evento da Amadora em termos de dinamização de mercado, quando apoiado por uma máquina promocional (desde logo autor e editor em sintonia).
Para além de Louro, os autores presentes em maior evidência nesta edição do Festival, foram, como era esperado, Spiegelman e Manara. Mas, para o público infantil, foi o Festival de 1995 que proporcionou, depois da vinda de Morris, a presença de outra super-vedeta – Maurício de Sousa.
O auditório encheu para receber o pai da “Turma da Mônica” , com a presença de muitas crianças curiosas. O autor foi confrontado com perguntas de extremo grau de dificuldade, como a razão pela qual o Chico Bento vai à escola e a Mônica não. Mas, sobretudo, Maurício promoveu o “Sonho da BD” encantando o público infantil com a forma como se aproximava delas. Respondendo a uma criança que não queria que o Cebolinha levasse pancada da Mônica cada vez que pedia um desejo ao poço, o autor afirmou: “mande a sugestão numa carta, escreva como quiser, que eu vou fazer uma história com a sua sugestão”.
Os autores presentes foram Luís Louro, Milo Manara (Itália), Régis Loisel (França), Lee Hyun Se (Coreia), Iron (Espanha), Jaime Martin (Espanha), Victor Borges, José Garcês, José Ruy, Nuno Saraiva, Maurício de Seusa (Brasil), Art Spiegelman (E.U.A), Alberto Varanda, Victor Mesquita, Carlos Morais, Patrícia Fonseca, Jean Dufaux (Bélgica).
|