ANO

RETROSPECTIVA | 1999

: 1999 |

XI SALÃO de BANDA DESENHADA da AMADORA

À décima edição, procurava-se o Festival da consagração. A aposta era naturalmente elevada, mas foi conseguida e revelou-se compensadora. O Festival alcançou todos os seus objectivos dando com este 10º Festival um passo decisivo na afirmação da produção portuguesa nas linguagens da banda desenhada, cartoon e cinema de animação. Estas duas últimas ganharam nos Recreios da Amadora a sua “casa” oficial, com apresentações de elevado nível. De grande nível foi também a cerimónia da entrega dos troféus.

Como referiu Nuno Saraiva na conferência/debate em que participou, começa a ser necessário reflectir sobre novas formas de apresentar (e expôr) a banda desenhada. Algumas das mostras do Festival reflectiam essa preocupação. Os exemplos mais significativos eram a exposição dedicada ao próprio Saraiva, a dedicada à obra de Cosey - revelando a personalidade do autor e o próprio método de trabalho, convidando a uma participação do espectador tão relevante como a leitura de um livro -, e a mostra do 10º aniversário, uma vitória da cenografia arrojada que o Festival tem experimentado, levando o espectador para o interior de uma enorme gaveta de arquivo.

Feitas as contas - 30.000 visitantes, 4.000 convidados, 160 artistas, 3.000 m2 de área de exposição, e 18 mostras -, o Festival foi um êxito, mas em termos de consagração falhou aos níveis do reconhecimento e divulgação. O Festival nada adiantou à batalha pelo reconhecimento e dignificação da banda desenhada. Muito por culpa da comunicação social, que noticia o Festival como qualquer outra exposição na grande Lisboa: indicação do horário, local, alguns nomes e (eventual) reprodução do cartaz. Nada mais. A televisão faltou à apresentação do evento, e a própria cobertura durante o Festival deixou muito a desejar. Praticamente, só o dia da inauguração chamou o Festival para os espaços da comunicação social. Há naturalmente excepções, mas limitam-se a confirmar a regra.

No que respeita a autores, o cartaz era um dos mais ambiciosos. Uma das grandes vedetas anunciadas, Alessandro Jodorowsky, acabou por não se deslocar à Amadora para o Festival Internacional de Banda Desenhada. Um inesperado acidente com fractura do joelho impossibilitou a presença do consagrado autor chileno.Já a visita do italiano Massimiliano Frezzato ao Festival da Amadora de 1999 foi, a todos os títulos, surpreendente.

Em primeiro lugar, corresponde a um enorme risco, da parte do Festival, que disponibilizou uma exposição e aceitou a vinda de um autor que não tinha, em Outubro de 1999, uma única obra editada em português. O Festival da Amadora desde sempre que vem privilegiando a obra impressa, expondo a banda desenhada como convite à leitura. No caso de Frezzato, o desconhecimento da sua obra impedia que este circuito se fizesse com facilidade. Para mais, a Vitamina BD - jovem editora que escolheu o nome do italiano, propôs a exposição e a visita - lamentavelmente, falhou a edição portuguesa dos dois primeiros volumes de “Maser” que pretendia lançar durante o Festival. O italiano revelou-se um enorme sucesso a todos os níveis. No Festival, a sua exposição foi das mais badaladas, as sessões de autógrafos (sem livros para assinar) prolongaram-se por muitas e muitas horas, e o debate que o FIBDA promoveu com o autor esgotou a lotação do auditório da Fábrica da Cultura.

Grande parte da audiência tinha tomado o primeiro contacto com o autor italiano através da exposição patente no Festival, de pranchas soltas e sem texto, que evidenciavam uma técnica extraordinária. A técnica de trabalho de Frezzato foi, portanto, o ponto de partida. Frezzato divide o seu trabalho em duas grandes áreas: a história e o desenho. A área da história é fantástica e muito precisa, já que o autor parte de uma sinopse que divide em livros e subdivide em capítulos, pranchas e vinhetas. E depois tem de a passar a desenho, o que não é fácil. Curiosamente, a história parte de sequências soltas (designadamente sonhos e visões), que Frezzato depois procura ligar e explicar. Para “Os Guardiães de Maser”, o autor planificou a história em nove álbuns (e nove anos), sendo que a sua própria evolução pessoal tem reflexos na evolução da obra. Relativamente à definição das personagens, preocupa-o sobretudo a credibilidade, que depende muito do aspecto tridimensional (ligado quer à aparência física quer à personalidade).

Como senhor absoluto das suas criações, Frezzato não hesita em castigar (e até matar) personagens cuja credibilidade não foi totalmente conseguida. Quanto às máquinas, fortalezas e armas que povoam as suas histórias, também estas podem ter origem em sonhos, ou em pequenos apontamentos que se fazem, por exemplo, quando se está ao telefone.
Na área do desenho, Frezzato tem utilizado técnicas muito diversas. No primeiro álbum, os passos eram o lápis, o lápis aguado, a passagem a tinta, a pintura a acrílico. De álbum para álbum, a técnica varia, e a passagem a tinta do trabalho a lápis vem sendo progressivamente abandonada. Um álbum demora entre oito meses e um ano. “É um trabalho de paciência”.
Para Frezzato, é mais importante a forma como conta uma história, do que aquilo que conta. É uma preocupação com a evolução e a coerência em que o sentido do discurso se revela, afinal, mais importante do que a técnica. Reconhecendo o dom natural que tem, e que lhe permitiu publicar uma história na Cimoc espanhola com apenas dezassete anos, Frezzato diz que nada é possível sem uma complementar aprendizagem e que, no seu caso, teve a felicidade de encontrar alguém que lhe indicou os passos a seguir. Há uma parte de aprendizagem e uma parte de dom natural que se traduzem num conflito entre paciência e impaciência. “É preciso saber refrear os cavalos”.

   
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