X FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA
À décima edição, entre os dias 22 de Outubro e 7 de Novembro, procurava-se o Festival da consagração. A aposta era naturalmente elevada, mas foi conseguida e revelou-se compensadora. O Festival alcançou todos os seus objectivos dando com este 10º Festival um passo decisivo na afirmação da produção portuguesa nas linguagens da banda desenhada, cartoon e cinema de animação. Estas duas últimas ganharam nos Recreios da Amadora a sua “casa” oficial, com apresentações de elevado nível. De grande nível foi também a cerimónia da entrega dos troféus.
Como referiu Nuno Saraiva na conferência/debate em que participou, começa a ser necessário reflectir sobre novas formas de apresentar (e expôr) a banda desenhada. Algumas das mostras do Festival reflectiam essa preocupação. Os exemplos mais significativos eram a exposição dedicada ao próprio Saraiva, a dedicada à obra de Cosey - revelando a personalidade do autor e o próprio método de trabalho, convidando a uma participação do espectador tão relevante como a leitura de um livro -, e a mostra do 10º aniversário, uma vitória da cenografia arrojada que o Festival tem experimentado, levando o espectador para o interior de uma enorme gaveta de arquivo.
Feitas as contas - 30.000 visitantes, 4.000 convidados, 160 artistas, 3.000 m2 de área de exposição, e 18 mostras -, o Festival foi um êxito.
No que respeita a autores, o cartaz era um dos mais ambiciosos. Uma das grandes vedetas anunciadas, Alessandro Jodorowsky, acabou por não se deslocar à Amadora para o Festival Internacional de Banda Desenhada. Um inesperado acidente com fractura do joelho impossibilitou a presença do consagrado autor chileno. Já a visita do italiano Massimiliano Frezzato ao Festival da Amadora de 1999 foi, a todos os títulos, surpreendente.
Em primeiro lugar, corresponde a um enorme risco, da parte do Festival, que disponibilizou uma exposição e aceitou a vinda de um autor que não tinha, em Outubro de 1999, uma única obra editada em português. O Festival da Amadora desde sempre que vem privilegiando a obra impressa, expondo a banda desenhada como convite à leitura. No caso de Frezzato, o desconhecimento da sua obra impedia que este circuito se fizesse com facilidade. Para mais, a Vitamina BD - jovem editora que escolheu o nome do italiano, propôs a exposição e a visita - lamentavelmente, falhou a edição portuguesa dos dois primeiros volumes de “Maser” que pretendia lançar durante o Festival. O italiano revelou-se um enorme sucesso a todos os níveis. No Festival, a sua exposição foi das mais badaladas, as sessões de autógrafos (sem livros para assinar) prolongaram-se por muitas e muitas horas, e o debate que o FIBDA promoveu com o autor esgotou a lotação do auditório da Fábrica da Cultura.
Grande parte da audiência tinha tomado o primeiro contacto com o autor italiano através da exposição patente no Festival, de pranchas soltas e sem texto, que evidenciavam uma técnica extraordinária. A técnica de trabalho de Frezzato foi, portanto, o ponto de partida. Frezzato divide o seu trabalho em duas grandes áreas: a história e o desenho. A área da história é fantástica e muito precisa, já que o autor parte de uma sinopse que divide em livros e subdivide em capítulos, pranchas e vinhetas. E depois tem de a passar a desenho, o que não é fácil. Curiosamente, a história parte de sequências soltas (designadamente sonhos e visões), que Frezzato depois procura ligar e explicar. Para “Os Guardiães de Maser”, o autor planificou a história em nove álbuns (e nove anos), sendo que a sua própria evolução pessoal tem reflexos na evolução da obra. Relativamente à definição das personagens, preocupa-o sobretudo a credibilidade, que depende muito do aspecto tridimensional (ligado quer à aparência física quer à personalidade).
Os autores presentes nesta edição foram Eduardo Teixeira Coelho, José Garcês, Art Spiegelman (EUA), Pierre Christin (França), Luís Louro, Cosey (Suiça), Frezzato (Itália), António Jorge Gonçalves, Teresa Lima, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Lailson Cavalcanti e Pavanelli (Brasil), Loustal (França), Miguelanxo Prado (Espanha), Schuiten (Bélgica), Mathias Shultheiss (Alemanha), Luís Diferr, José Abrantes, João Fazenda, Ricardo Blanco, Pedro Brito e André Carrilho.
Nesta edição foram premiados os seguintes trabalhos: "Filosofia de Ponta", de Nuno Saraiva e Júlio Pinto (Melhor Álbum Português); "As Pombinhas do Sr. Leitão", de Miguel Rocha(Prémio Especial Revelação para Melhor Álbum Português); "O Sono do Monstro", de Enki Bilal e "A Menina Inclinada", de Schuiten e Peeters (Melhor Álbum Estrangeiro editado em Portugal); "Akira", de Katsuhiro Otomo e "Mutts", de Patrick McDonnell (Menção Especial para Melhor Álbum Estrangeiro editado em Portugal); "Bíblia" (Melhor Fanzine) e "Área de Mancha" (Menção Honrosa); "Fanzines e Fanálbuns: definições, polémicas e balanço de 1998", de Geraldes Lino (Melhor Artigo de Imprensa) e "O Sono do Monstro", de Enki Bilal (Prémio Juventude).
O Prémio AmadoraCartoon foi atribuído a Vitor Câmara (a título póstumo), Artur Correia, João Rosa, Jorge Rocha, Martinez, Onileda e Zé Penicheiro (Portugal).
Este ano, o Troféu de Honra foi atribuído a Jorge Magalhães.
Para visualizar fotografias clique aqui.
|