XII SALÃO de BANDA DESENHADA da AMADORA
O programa da edição 2000 do Festival propunha uma oferta bastante diversa da habitualmente sugerida em edições anteriores. O mercado norte-americano estava em manifesto destaque, como o evidenciava o tema escolhido para o evento: “Super--heróis para o Século XXI”.
A existência de um tema central era uma das grandes novidades do Festival que mudava de Director. Para mais, o tema forte do FIBDA 2000 revelou-se uma aposta ganha em diversas frentes. Em primeiro lugar, o risco de que uma diferente orientação para fora do habitual domínio franco-belga se reflectisse no público revelou-se infundado. O público compareceu tal como nas últimas edições do Festival. Em segundo lugar, o tema revelou-se inesperadamente actual. Rick Veitch, Dave Gibbons, Liam Sharp e Peter David vieram à Amadora explicar o momento de apreensão que viviam os ‘comics’ norte-americanos, face à grande incerteza quanto ao futuro de um modelo de BD assente nos super-heróis. Finalmente, os super-heróis para o século XXI à portuguesa, via Produções Fictícias, permitiram regressar à discussão sobre possíveis soluções de viabilidade para a criação portuguesa no domínio da banda desenhada, num debate que juntou o Director do FIBDA a vários desenhadores e argumentistas.
O tema central reflectia-se não só em termos de exposição, mas também ao nível do catálogo do Festival, que passou a ser uma obra de referência fundamental.
O FIBDA 2000 representou uma celebração verdadeiramente singular, num duplo sentido. Desde logo, pela forma como procurou aproximar a banda desenhada de outras formas de linguagem, rompendo com a separação rígida da edição 1999. A exposição de animação americana na Fábrica, a mostra de BD de Piracicaba nos Recreios, os debates com Pennac, Yoichi e Megumu contribuiram para esta aproximação, com reflexos, por exemplo, ao nível do sucesso da edição 2000 do Festival CinemAnimação, que pareceu muito mais integrado.
Por outro lado, estiveram presentes diferentes culturas com muita força e interesse. O eixo Portugal - Brasil – Estados Unidos – Japão – França / Bélgica deveria permanecer válido em futuras edições do FIBDA, ainda que com diferentes pesos relativos, na medida em que contribui decisivamente para a contínua afirmação do Festival. Releva o impacto que o género de apresentação que o FIBDA propõe provocou nos seus convidados estrangeiros. Particularmente os americanos, ingleses e japoneses mostraram-se agradavelmente surpreendidos pelo facto de a banda desenhada estar a ser mostrada pelo seu valor artístico (com forte apoio da estrutura municipal), algo que não é totalmente evidente em países onde o interesse comercial (e industrial) se sobrepõe ao artístico. Assim, também o esforço financeiro que o Festival desenvolveu para trazer autores de paragens mais distantes do que o habitual sai recompensado.
A Fábrica da Cultura apresentava-se verdadeiramente compartimentada, numa solução que não permitia a visão de conjunto mas garantia uma maior força individual a cada mostra. Em relação ao ano anterior, sentia-se uma valorização no conjunto das exposições com uma presença mais abrangente no que respeita a cenografia (embora, mais uma vez, a mostra dedicada à obra do autor português responsável pela linha gráfica – no caso, João Fazenda - se evidenciasse).
A mostra de balanço dos Super-Heróis do Século XX, à partida a mais arriscada porque não é, como se calcula, fácil arranjar os originais das grandes obras de um género tão representativo, resultava muito eficaz com o complemento de publicações e reproduções. Entre as grandes revelações expostas contavam-se ainda a colectiva de animação, a mostra de Civiello, ou o pato inédito de Lourenço Mutarelli.
Depois, havia apostas que estavam ganhas à partida, como Dave Gibbons ou Angeli.
O conjunto das exposições fazia a celebração da ilustração segmentada de sentido narrativo: da BD à animação, passando por zonas de fronteira com a ilustração, como o espaço de Mac McGill. McGill trabalha em ilustração, e vive em Manhattan, Nova Iorque.
Num espaço comercial onde Pokémon dominava, várias eram as novidades editoriais que também justificavam uma visita, para além de um muito concorrido espaço de RPG, com os jogos Magic e Pokémon.
Nas novas apostas da Fábrica da Cultura em termos de disposição do espaço, o grande prejudicado foi o bar, que se tornou menos convidativo e perdeu a magia de outros anos.
Personalizando a capacidade do Festival de 2000 de mostrar outras culturas e linguagens, os japoneses Yoichi e Megumu foram dos mais procurados nas sessões de autógrafos, e conduziram um invulgar e muito interessante debate sobre a animação no Japão.
Kotabe Yoichi nasceu em 1936 em Taiwan. Completou o curso de pintura japonesa da Universidade de Arte de Tóquio, e começou a sua carreira no cinema de animação na Toei Animation Inc.., sendo um dos pioneiros da animação japonesa (anime). Colaborou em produções como Heidi e Marco, e efectuou diversos trabalhos para a Nintendo. Recentemente, também colaborou na animação de Pokémon. Kotabe Yoichi é um dos mais respeitados animadores japoneses, estando directamente ligado à concepção gráfica de personagens como Heidi ou Super Mário.
Ishiguro Megumu nasceu em 1947 e também iniciou a sua carreira de animador na Toei Animation Inc. Em 1973 formou a Doga Kobo Ltd., um dos principais estúdios de animação japoneses. Com um vasto currículo como animador, realizou experiências de workshop em França em 1993, e no Brasil em 2000.
Segundo Yoichi, para trabalhar em animação é fundamental ter gosto por esta opção, e muita imaginação. A televisão é insuficiente como referência. Há que ler muito, e criar a partir dessas bases. Há que visitar museus, ler poesia, ouvir música, etc. Tudo o que se acha interessante pode ser desenvolvido em termos de animação. A prática é fundamental, e o desejo de aperfeiçoamento deve sempre estar presente. Yoichi entende que uma formação específica não é indispensável, embora ajude no processo de prática e aperfeiçoamento. Afinal, quando começou a sua carreira, não havia quaisquer escolas de animação. Yoichi começou por uma escola de pintura e depois fez um primeiro teste para a Torei Animation. Pensou que teria possibilidades, mas não passou no teste. Treinou muito e voltou a candidatar-se. Quando entrou para a Torei já tinha a ideia de que era um grande desenhador, mas depois apercebeu-se de que estava a iniciar um novo (e longo) caminho de aprendizagem. A Torei promove testes semanais, em que os iniciados demonstram a sua aprendizagem. Um iniciado é muito mal pago, desenhando cerca de cento e noventa folhas por mês. O processo de iniciação leva cerca de dois anos. Ao fim de dois anos, passando todos os testes, passam a desenhar seiscentas folhas por mês.
Desde que entrou para a Torei, Yoichi começa a participar em animação, em tarefas progressivamente mais complexas. Conseguiu tornar-se um grande desenhador, e hoje é só um supervisor. Quando trabalhava em Heidi, Yoichi ocupava doze horas do seu dia na animação – excluíndo refeições.
Yoichi e Megumu assumiram perante o interessadíssimo público que é difícil a um autor estrangeiro afirmar-se na animação japonesa. Para além da barreira da língua, há que contar com o factor económico dos dois anos de iniciação.
Finalmente, e extra-programa, Yoichi e Megumu brindaram o público presente com um extraordinário conjunto de originais (base de uma oferta que fizeram à colecção do CNBDI), explicando todos os aspectos mais técnicos da animação japonesa, um prémio justo para um público interessado, pertinente e muito paciente, maioritariamente composto por estudantes do ensino secundário.
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