ANO

RETROSPECTIVA | 2002

: 2002 |

XIII SALÃO de BANDA DESENHADA da AMADORA

Raramente o Festival conseguiu uma oferta tão abrangente e equilibrada como nesta edição de 2002, satisfazendo quem gosta de banda desenhada franco-belga, quem aprecia mais os comics norte-americanos, quem prefere o alternativo ou quem segue o mais comercial, nunca esquecendo a banda desenhada portuguesa, apresentada num verdadeiro plano de igualdade.

No primeiro fim-de-semana, apesar da presença de um grupo de autores de grande qualidade, representativo de diferentes tendências e sensibilidades, o protagonismo tem de ser atribuído aos editores. Asa, Booktree, Devir, Polvo e Witloof, mostraram o que significa estratégia editorial e o aproveitamento que se pode e deve fazer de um acontecimento como o FIBDA. E mostraram-no com uma evidência que há muito tempo não se via. Veja-se a forma como a Asa tirou partido da presença de Jacques Martin no FIBDA, a dinâmica da Booktree em torno do novo álbum de Louro, a complementaridade que a Devir trouxe à exposição retrospectiva de Alan Moore, o acompanhamento que a Polvo fez de Christophe Blain, ou o acontecimento que a Witloof fez dos prémios com que o FIBDA distinguiu “O Vento nos Salgueiros” e “Ideias Negras”.

Na Escola Intercultural, apesar de a exposição central do evento, A Odisseia – A BD portuguesa na viragem do século, não ter sido conseguida em virtude da cenografia demasiado arrojada, as restantes mostras confirmavam a qualidade da edição 2002 do FIBDA: a cenografia da mostra de Pedro Brito, a originalidade de Christophe Blain, a dignidade e o rigor de O Mundo Clássico de Jacques Martin, o extraordinário detalhe dos originais de Rosinski, a composição e trabalho de cor de Baru, a paixão nos originais de Oscar Zarate e Melinda Gebbie, a fortíssima identidade do universo Fantagraphics (onde se destacavam os brilhantes originais de Charles Burns e Chris Ware), o ambiente do novo trabalho de Luís Louro, etc. Ainda assim, as mostras que englobaram esta edição do FIBDA teriam, certamente, outra dignidade num espaço mais amplo e com mais possibilidades ao nível das soluções.

Fora da Escola, destaque obrigatório para a extraordinária exposição de homenagem a Arcindo Madeira (Galeria Municipal Artur Bual), cuja síntese de um traço solto e eficaz (fortemente enraízado no desenho do natural) não deixa ninguém indiferente. Mas as restantes mostras “descentralizadas” também justificam plenamente a visita: a diversidade da ilustração de João Caetano (Casa Roque Gameiro), a qualidade das exposições de cartoon (Recreios da Amadora) a originalidade dos Dez Autores Contemporâneos em França (Centro de Arte Contemporânea), a mestria de José Ruy (Auditório de Alfornelos) ou o génio de Alan Moore (CNBDI).

Neste ano de 2002 a Amadora recupera decisivamente toda a sua importância e prestígio nacional e internacional. No panorama português, o FIBDA foi o acontecimento de BD. Foi o ponto de convergência das estratégias de editoras que publicaram um volume impressionante de novidades, o local de encontro dos autores, a ponte entre diversos tipos de profissionais, e a base de todos os projectos de futuro.

Em termos internacionais, a conferência “100 Bandas Desenhadas para o Século XX” (organizada por João Paiva Boléo com a presença de estudiosos de renome portugueses e estrangeiros) e a mostra retrospectiva de Alan Moore levaram o nome da Amadora a diversos cantos do mundo. As exposições “Odisseia” e “Alan Moore” suscitaram o interesse de diversos festivais e museus estrangeiros. E é preciso não esquecer que o FIBDA 2002 aparece numa altura em que as iniciativas culturais e locais estão fortemente condicionadas por limitações de ordem orçamental, e que, desde 2001, a Câmara passou a custear a quase totalidade do orçamento do FIBDA. Num cenário destes, um evento com a qualidade e o equilíbrio da edição 2002 é, naturalmente, ainda mais significativo.

Entre os autores presentes, o tímido Chris Ware foi a estrela maior. Nascido em 1967, Chris Ware é talvez o mais influente autor alternativo da actualidade ao nível mundial. A prová-lo está o prémio para o melhor álbum que distinguiu o seu “Jimmy Corrigan” em Angoulême, três meses após a passagem pela Amadora. A sua série The ACME Novelty Library, afirmou-se tanto pelo seu conteúdo como pela sua forma (estabelecendo novas fronteiras da BD face ao design, e variando por completo as dimensões de número para número). Desde 1995, The Acme Novelty Library tem sido distinguida com um impressionante número dos mais prestigiosos prémios da indústria da BD norte-americana, entre Harvey, Eisner e Ignatz Awards, e mesmo o Reuben Award for Excellence. Em 2000, a Pantheon Books recolheu Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth num único livro. Tido nos Estados Unidos como o maior avanço da BD no campo literário desde o Maus de Spiegelman, o livro foi destacado pela TIME, The Village Voice Literary Supplement, Entertainment Weekly e outras. A expectativa era enorme em conhecer o homem por detrás da obra, mas Chris Ware é efectivamente demasiado tímido. Esteve numa conferência escondido atrás do microfone, com visível dificuldade em enfrentar a interessadíssima audiência. Com o tempo da conferência, lá foi revelando a sua valiosíssima personalidade, que muito tem emprestado às suas extraordinárias criações no domínio da BD.

Os autores presentes foram Daniel Clowes (E.U.A.), Charles Burns (E.U.A), Chris Ware (E.U.A), Eric Reynolds (E.U.A), Baru (França), Marc-Antoine Mathieu (França), Rosinski (Polónia), Sebastien Ferran (França), Jorge Zentner (Argentina), Rick Veitch (E.U.A), John Totleben (E.U.A), Bruno Madaule (França), David Soares, Paulo Patrício, Luís Louro, João Miguel Lameiras, João Ramalho Santos, José Carlos Fernandes, Pedro Pires, Pedro Brito, Arcindo Madeira, Miguel Rocha Pedro Massano, José Carlos Fernandes, Pedro Pires, Pedro Afonso, André Carrilho, Rui Lacas, João Fazenda, Oscar Zarate (Argentina), Melinda Gebbie (E.U.A), Jacques Martin (França), Christophe Blain (França), José Villarrubia (Espanha), Cosey (Suíça) e Rafael Morales (Suíça).

   
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